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‘Entro rezando no hospital’: a aflição dos heróis da saúde na luta contra o coronavírus

O médico José Humberto Guimarães

A missão de ajudar a salvar vidas humanas em meio à pandemia pelo novo coronavírus tem um preço alto para os profissionais da saúde de todo o mundo. Nesta luta, além de estarem mais expostos ao vírus, a possibilidade de infecção é potencializada pela escassez de recursos, principalmente equipamentos de proteção individual como máscaras, óculos, luvas e aventais. Até esta sexta-feira (17), 154 profissionais já haviam sido infectados na Bahia, segundo informações da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab). Nesta situação, as emoções oscilam entre o medo e a esperança. Confira relatos de baianos que estão abraçando com força o juramento de servir à humanidade:

Os depoimentos podem ter sofrido leve edição para dar melhor fluidez ao texto

José Humberto Guimarães, médico em UPA em Salvador

“Eu nunca me desesperei quando chegaram as notícias [de que havia casos na Bahia]. Estava acompanhando o cenário mundial e me preparei para que acontecesse aqui mais cedo ou mais tarde. Eu trabalhava em um hospital geral e até aquele momento ia continuar sendo geral, não ia influenciar na minha vida, mas aí começaram a separar os leitos de UTI e eu senti uma ansiedade no sentido de me preparar para estar bem capacitado para fazer as coisas. Quando soubemos que o hospital teria atendimento de covid, ficamos bem assustados porque não nos sentíamos preparados.

Numa noite, o hospital foi esvaziado, já não tinha pacientes internados, UTIs vazias e isso me deu uma aflição. O que estamos vivendo? O que isso significa? Era a aflição do novo, do que viria a ser, mas, agora, com os casos mais reais, tendo que lidar com os pacientes, existe ainda a preocupação, mas nesse convívio de verdade, você vê que é um paciente como qualquer outro.

O chefe de UTI lá é muito sério, lúcido, me deixava tranquilo, mas ele deu um relato de que não pode abraçar a filha no dia do aniversário dela por causa do vírus. Isso me doeu bastante. A gente tem que proteger quem mora com a gente. Hoje, estou mais tranquilo, vejo que as coisas aqui estão bem preparadas. Eu tive várias fases sobre enxergar minha função como essencial. Mas, no geral, essa foi a escolha que fiz, esse foi o risco que escolhi para minha vida. Mas dá muito medo. Por que fui escolher isso? Bate o desespero, mas tenho que ser racional, consciente. Não foi pelo status, não foi pelo dinheiro… Eu tenho buscado as raízes da minha escolha pela profissão.

Emy Damasceno, enfermeira em UTI de hospital

“Eu já lido com paciente de infectologia há mais de um ano e meio, porque trabalhava na UTI do Hospital Couto Maia [maior unidade de referência do combate ao coronavírus] com quadros respiratórios de H1N1 e tuberculose, mas a covid-19 veio com uma novidade assustadora pelo fato de ser uma patologia de evolução rápida e contaminação fácil. Isso nos assustou porque vieram logo os relatos de que muitos profissionais da saúde estavam se contaminando e morrendo. Foi estressante para mim porque moro com meu filho de 11 anos e tenho mãe idosa. 

A primeira coisa que fiz foi isolar o meu filho com a minha mãe, estão juntos desde 16 de março. Eu fiquei sozinha no meu apartamento e é muito chato, foi dolorido. A minha mãe é idosa, mas é até para frente, sabe fazer videochamada. Quando bate a saudade ou precisa de algo, a gente liga, eu vou lá na casa dela, vejo eles sem sair do carro e eles falam lá da grade da casa. Foram muitas noites sem dormir com medo de me contaminar, de receber pacientes que são amigos, familiares por que como lidar como se eles não fossem? 

Hoje estou mais tranquila, vou ter que trabalhar e lidar com isso, é a realidade da minha profissão. Preciso ter os cuidados necessários, mas me preocupa a disponibilidade dos EPIs nas instituições, como estão lidando com os fluxos de área limpa, área suja, os cuidados com o preparo da alimentação dos profissionais para não gerar contaminação. Isso sem contar o acúmulo de função, principalmente dos profissionais de enfermagem, que estão sobrecarregados porque os enfermeiros fazem muitas funções e lidam diretamente com o paciente. Isso tudo acumula e estressa, somando com o fato de estarmos todos paramentados daquele jeito, machucados, sufocados. Ainda não tive a alegria de ver um paciente saindo curado.

Para mim, primeiro foi o susto com tudo. Primeiro eu pensei até em arrumar um jeito de pular fora disso, mas pedi proteção à Deus. Depois comecei a me entender dentro da situação e ver que minha função é fazer a diferença. Apesar de ter medo, eu me sinto importante. O que me faz bem é saber que estou trabalhando com o que amo e estou tentando fazer o bem para alguém, mas ao mesmo tempo tenho amigos que estão na terapia porque não estão dando conta de tamanha pressão. A covid-19 é também uma doença psicossocial. Está mexendo com tudo, com as relação entre as pessoas, com a economia. A minha visão de tudo isso é que lá na frente teremos muito crescimento e muita maturidade.

O técnico em enfermagem Luciano Júnior (Foto: Arquivo pessoal)

Luciano Júnior, técnico em enfermagem em hospital de Salvador

“Onde trabalho a gente só recebe paciente regulado com o perfil de atendimento do hospital, não temos porta aberta para qualquer caso. Até recebemos um caso suspeito que felizmente deu negativo. Mesmo sem ser referência em covid-19, todos os profissionais estão paramentados. Hoje isso já é rotina e eu, particularmente, já saio de casa com máscara e colocou uma nova quando chego no hospital. Temos três máscaras por dia para trabalhar, mas não tivemos um treinamento. Eu fui pesquisando, adquirindo informações com hospitais que estão se preparando para casos de coronavírus. Eu tenho muito medo de ser contaminado porque tenho mãe diabética, pai hipertenso e os dois tem mais de 60 anos. Já não tenho contato com eles há 45 dias e faço chamada de vídeo para poder conversar.

Fui visitar a minha filha para levar umas compras e não passei da porta, soltei beijo de longe. Ela me mandou um áudio: ‘papai, cuidado com o coronavírus’.

Daniela Carneiro, estudante de medicina da UEFS voluntária do Disque Coronavírus (155), a central telefônica de orientação à população

“Quando começou, eu não estava acreditando que ia ter esse impacto tão grande. A maioria dos infectologistas não estavam acreditando que seria desse jeito. Eu estava mais na minha visão de pessoa que estava dentro do hospital, que tinha acabado de começar o internato e ainda estava me acostumando com o ambiente hospitalar porque lá já são muitos os medos de se contaminar com coisas piores do que o coronavírus. 

A UEFS suspendeu as aulas e a Sesab suspendeu o internato… Eu me inscrevi para o Disque Coronavírus porque pensei, poxa, eu posso ser mais uma pessoa ajudando porque aí fica mais leve para quem está na linha de frente. Essa experiência pode se repetir no futuro com alguma outra epidemia ou até com doenças que a gente já conhece bem, como a dente, e acho que participar atendendo às dúvidas pode me preparar tecnicamente.

Quando você é um profissional da saúde, você vira a referência da família sobre o assunto e fico apreensiva porque não sei tudo sobre o vírus e não posso espalhar informação errada. O meu pai e a minha mãe recebem coisas no Whatsapp e a todo momento me pedem validação. Isso cansa… O que me dá mais ansiedade é as pessoas querendo saber em que ponto a gente está de descobrir a cura, a vacina. ‘Você ouviu falar de tal remédio?’. Não tenho como dar conta de responder tudo, se é verdade ou não.
 

Kátia Borges, fisioterapeuta em duas UTIs de Salvador

“Inicialmente, eu estava acompanhando os casos em todo o mundo. Eu via as notícias falando dos médicos e enfermeiros, mas sabia que também teríamos que estar ali diante da parte mais contagiosa, que é a questão da via aérea do paciente, por causa da intubação, que pode dar tosse, secreção, coleta de catarro. O respirador, que é um grande equipamento de assistência ao paciente, muitas vezes é manipulado por nós, fisioterapeutas. Sabia que seríamos peça fundamental e não poderíamos ser dispensados. Hoje, isso está mexendo com todos nós. 

As equipes entram no plantão e ficam lá até o fim, só saem depois de 12h. Eu prendo um pouco mais as necessidades, bebendo menos água, para que não chegue um momento que tenha que tirar os EPIs e se contaminar. Alguns estudos mostram que a desparamentação, que é essa retirada dos equipamentos de proteção, é o momento em que os profissionais mais se contaminam. Você fica entre a cruz e a espada porque a gente fica com medo de se contaminar e também de adoecer em função de não beber água. Vi uma orientação para que a gente quando fosse para um plantão se alimentasse bem e bebesse bastante água no dia anterior para não sentir tanto. 

Hoje a gente tem um ritual diferente de se vestir. Estamos com o rosto completamente coberto com vários utensílios. Quem usa óculos precisa usar outro óculos por cima, isso dói o nariz. Aquela viseira de acrílico me deu muita dor de cabeça no meu primeiro plantão. Fiquei com o rosto todo marcado, sou vaidosa e olhava no espelho e não me reconhecia tão coberta. Hoje a gente escreve os nossos nomes nas roupas para conseguir se identificar porque não nos reconhecemos mais tão facilmente. Nossas mãos estão detonadas porque usamos muito álcool em gel, lavamos milhões de vezes, então a pele começa a dar sinais de desgaste. Eu fui sacar dinheiro com biometria e tive dificuldade. 

Eu me sinto honrada em estar vivendo esse momento da história, como profissional, mas gostaria muito de ser a pessoa que está em home office em casa. Eu já saí de casa chorando porque ia dar plantão e também já voltei chorando porque tivemos perda de paciente. Para mim, o ideal é não ver telejornal porque as notícias sobre aumento de casos piora a ansiedade, dá a sensação que você está na história e que não vai sair por tão cedo. Ainda teremos dias difíceis e é desesperador para a gente.

Onde trabalho não tivemos que escolher entre uma vida ou outra, quem vai usar os aparelhos. Em Salvador, acredito que temos por enquanto uma situação mais confortável. Vi uma matéria sobre Manaus e é desolador, fora que ainda temos os embates políticos para piorar tudo. Só quem sofre somos nós e os pacientes, que têm um perfil de solidão muito forte. O paciente não pode ver sua família e nós estamos isolados dos nossos filhos, pais, maridos e amigos. A família dos pacientes agora somos nós, a gente conversa e se apega a eles. Hoje saio de casa pedindo muita fé, entro rezando no hospital o Pai Nosso de sempre, sou muito apegada a Nossa Senhora de Fátima. 

O bom é que tem existido entre nós um cuidado muito bom um com o outro, ninguém está sozinho lá dentro, somos uma equipe. Se tem uma doença que tem mostrado o trabalho em equipe é a covid-19. Tem sempre alguém cuidando de mim, alguém segurando o equipamento para eu não me contaminar. Já tivemos uma vitória de um paciente curado. A gente precisava muito daquele momento, de esperança, de uma vitória nossa. 

Quando houve o primeiro óbito da equipe uma colega ficou muito triste, mas conversei que a gente fez absolutamente tudo, não faltou material, respirador, leito e nem profissional. Às vezes, é o curso natural da vida e da doença, assim como morrem pacientes por infarto, acidentes de carro. Nós precisamos dar continuidade e não podemos nos abalar muito porque precisamos ter força e olhar para a frente, para o que vem em frente.

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